O Gestor e o ocupante do cargo

Utilizei a palavra gestor, pois é a que está mais sendo utilizada, a que está “na moda”, mas poderia usar gerente, administrador ou qualquer outro título que designe a pessoa encarregada de gerenciar pessoas, determinadas tarefas, projetos ou serviços.

Ao gestor cabe a responsabilidade de criar as condições necessárias para as coisas acontecerem. “Administrar é a arte de fazer coisas através de pessoas”, afirma o dito comum entre os profissionais da área de negócios.

A afirmação, mais do que acertada, coloca de imediato dois lados opostos: o Gestor, e o ocupante do cargo.

O primeiro é aquele que realmente possui as três habilidades necessárias e imprescindíveis para o desempenho da função de gestor: habilidades técnicas, conceituais e humanas ou de relacionamento.

As habilidades técnicas são aquelas afetas diretamente ao desempenho operacional da função. Assim, um gestor da área financeira deve ter a habilidade técnica de conhecer as atribuições de sua área e as suas implicações. São habilidades geralmente oriundas da prática cotidiana e torna-se quanto maior quanto for a experiência.

As habilidades conceituais dizem respeito ao conhecimento de referencial teórico sobre a área que se está gerenciando. É a base que solidifica os conhecimentos e serve de instrumental para a gestão. Estas habilidades são em geral aprendidas na universidade, ou em cursos de especialização.

As habilidades humanas ou de relacionamento, são talvez as mais importantes que o gestor deva possuir. Esta habilidade é que irá colocar em prática as duas anteriores. Assim é que iremos conseguir fazer coisas através de pessoas.
As habilidades de relacionamento infelizmente não são ensinadas nas escolas. Em geral são natas ou aperfeiçoadas com o passar do tempo, e a observação criteriosa do que nos cerca.

Com efeito, o único que merece o título de gestor (gerente, administrador, supervisor…), é aquele que exercita as três habilidades, e vive plenamente a situação de ser gestor, ou seja, arca com o ônus e o bônus que a função lhe reserva, com as vitórias e derrotas cotidianas no ambiente organizacional, e principalmente a iniciativa da tomada de decisão.

Neste momento crucial, distinguimos o gestor, do ocupante do cargo. Do primeiro, falamos anteriormente, e o segundo é aquele que se limita a ocupar o cargo de gestor, sem entretanto, deter as habilidades necessárias e pior ainda, ou em causa disto, com medo de tomar decisões.
Este tipo de profissional (e infelizmente não são poucos…), escuda-se atrás de normas e procedimentos limitando-se a cumpri-los e simplesmente seguir de forma mecânica o que diz o manual.

Não sou contrário às regras, ao oposto, sou legalista e tenho a certeza que disciplina e hierarquia são pilares históricos da administração, herdadas das legiões romanas e que devem ser respeitadas. O que discuto é justamente o discernimento para aplicar as normas com sabedoria e decidir quando é preciso vencer as normas, visando ao bem comum, ao bom senso, e sendo proativo.

O que considero um desperdício é colocar alguém na função de “gestor”, para mecanicamente seguir o que está escrito. Para esta função, basta um estagiário, que não deve ter autonomia, e sim ser supervisionado por um gestor.

Não há mais espaço para o gestor cumpridor de ordens e tarefas. Esta função taylorista é para níveis operacionais, jamais para tático ou estratégicos. Da mesma forma, está com os dias contados o funcionário que “nunca falta, e sempre cumpre com suas obrigações…” Isto é o mínimo que se espera dele. O diferencial está no valor que é agregado a função, justificando o título de Gestor.

E você? É gestor ou simplesmente está ocupando o cargo?

Augusto Amaral é administrador, mestre e doutor em administração. Professor e coordenador de pós graduação na Faculdade FAIPE. padraoamaral@gmail.com

 

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